Nem toda dor é lesão: implicações para a fáscia e a dor miofascial
A compreensão contemporânea da dor exige que abandonemos o modelo puramente estrutural. A dor não é um simples reflexo de dano tecidual; ela é uma experiência perceptiva produzida pelo sistema nervoso em resposta à interpretação de ameaça (IASP, 2020). Esse princípio é fundamental quando falamos de fáscia e dor miofascial.
Durante décadas, a dor miofascial foi explicada quase exclusivamente por alterações mecânicas locais — contraturas, aderências ou “nós” musculares. Contudo, a literatura atual sugere que a relação entre fáscia e dor é muito mais complexa e envolve integração mecânica, neurofisiológica e psicossocial.
1. A fáscia como órgão sensorial
Estudos anatômicos e histológicos demonstraram que a fáscia é altamente inervada, contendo:
-
Fibras A-delta e C
-
Mecanorreceptores
-
Nociceptores polimodais
Robert Schleip demonstrou que a fáscia toracolombar possui maior densidade de nociceptores do que o próprio músculo esquelético adjacente. Isso significa que, em muitos quadros de dor lombar, a origem nociceptiva pode estar mais relacionada à fáscia do que ao músculo.
Além disso, Helene Langevin mostrou que fibroblastos respondem a estímulos mecânicos alterando sua morfologia e organização citosquelética, evidenciando que o tecido fascial é mecanossensível e biologicamente ativo.
Portanto, a fáscia não é apenas um tecido passivo de sustentação, mas um órgão sensorial e comunicativo.
2. Dor miofascial: estrutura ou processamento central?
A definição clássica de ponto-gatilho proposta por Janet Travell e David Simons associa a dor miofascial a uma placa motora disfuncional com liberação excessiva de acetilcolina, hipóxia local e alteração metabólica.
Entretanto, evidências atuais sugerem que:
-
Nem todo ponto doloroso apresenta alteração estrutural palpável consistente
-
Nem toda banda tensa é dolorosa
-
A dor referida pode envolver mecanismos centrais
Clifford Woolf descreve a sensibilização central como amplificação da transmissão neural no sistema nervoso central, resultando em dor persistente mesmo com estímulos mínimos.
Isso implica que:
✔ Nem toda dor miofascial representa dano estrutural
✔ Parte da dor pode ser resultado de amplificação neural
3. Densificação fascial e deslizamento
A abordagem de Carla Stecco introduziu o conceito de “densificação fascial”, relacionado ao aumento da viscosidade do hialuronano entre as camadas fasciais, prejudicando o deslizamento.
Essa alteração pode gerar:
-
Aumento de tensão mecânica
-
Ativação nociceptiva
-
Redução de mobilidade
Entretanto, mesmo nesses casos, a dor não é proporcional à alteração estrutural. O grau de sofrimento depende da modulação neural e do contexto biopsicossocial.
4. Fáscia, sistema nervoso autônomo e dor
A estimulação fascial através de técnicas como liberação miofascial pode:
-
Modular atividade simpática
-
Influenciar variabilidade da frequência cardíaca
-
Alterar percepção dolorosa
Isso sugere que o efeito terapêutico pode ocorrer mais por modulação neurofisiológica do que por “quebra de aderências”.
5. Implicações clínicas para o fisioterapeuta
Se nem toda dor é lesão, a abordagem miofascial deve considerar:
1️⃣ Avaliação estrutural
-
Deslizamento
-
Mobilidade
-
Tensões de cadeia
2️⃣ Avaliação neurofuncional
-
Sensibilidade aumentada
-
Dor desproporcional
-
Padrões de hipervigilância
3️⃣ Educação em dor
Explicar ao paciente que:
-
Dor não significa dano grave
-
Movimento é seguro
-
O sistema nervoso pode estar sensibilizado
6. Integração prática na dor miofascial
A intervenção eficaz deve combinar:
-
Técnicas manuais (modulação periférica)
-
Movimento terapêutico (normalização de carga)
-
Educação em dor (modulação cognitiva)
-
Exposição gradual ao movimento
A liberação miofascial não deve ser vista como técnica “corretiva estrutural”, mas como ferramenta de modulação do sistema neurofascial.
📚 Referências Bibliográficas
-
International Association for the Study of Pain (IASP). (2020). Revised definition of pain.
-
Schleip R et al. (2012). Fascia as a sensory organ. Journal of Bodywork and Movement Therapies.
-
Langevin HM et al. (2006). Fibroblast cytoskeletal remodeling in response to mechanical stretch. FASEB Journal.
-
Stecco C et al. (2013). The fascial system and its role in musculoskeletal pain. Surgical and Radiologic Anatomy.
-
Woolf CJ. (2011). Central sensitization: implications for diagnosis and treatment of pain. Pain.
-
Travell JG, Simons DG. (1999). Myofascial Pain and Dysfunction.




















