A afirmação “nem toda dor é uma lesão, nem toda lesão provoca dor” representa um dos pilares da moderna ciência da dor. Durante décadas, predominou o modelo biomédico cartesiano, no qual a dor era entendida como consequência direta e proporcional a uma lesão tecidual. Entretanto, os avanços em neurociência demonstraram que essa relação é muito mais complexa.
1. Dor não é igual a dano tecidual
A Associação Internacional para o Estudo da Dor (IASP) redefiniu dor em 2020 como:
“Uma experiência sensitiva e emocional desagradável associada, ou semelhante à associada, a dano tecidual real ou potencial.”
(IASP, 2020)
Essa definição já rompe com o paradigma clássico ao afirmar que a dor pode ocorrer mesmo na ausência de dano tecidual detectável.
A dor é uma experiência perceptiva gerada pelo sistema nervoso central após processamento e interpretação de múltiplos fatores:
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Sinais nociceptivos periféricos
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Expectativas
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Experiências prévias
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Contexto emocional
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Ambiente social
Como afirma Lorimer Moseley, a dor é uma saída do cérebro quando este interpreta que o corpo está sob ameaça, e não simplesmente quando há dano estrutural.
2. Evidências de dor sem lesão
Estudos de imagem demonstram que alterações estruturais muitas vezes não se correlacionam com dor.
Um exemplo clássico é o estudo de Scott Boden (1990), que avaliou indivíduos assintomáticos e encontrou:
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20% a 30% com protrusão ou hérnia discal
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Alta prevalência de degeneração discal sem dor
Da mesma forma, a revisão sistemática de Wade Brinjikji et al. (2015) mostrou que:
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Degenerações discais, protrusões e abaulamentos são extremamente comuns em indivíduos assintomáticos
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A prevalência aumenta com a idade
Ou seja, lesão estrutural não significa necessariamente dor.
Outro exemplo é a dor fantasma, onde há dor intensa em um membro amputado — ausência total de tecido, mas presença de dor — reforçando que dor é uma construção neural.
3. Lesão sem dor
O oposto também é verdadeiro: existem lesões estruturais importantes sem manifestação dolorosa.
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Rupturas parciais de manguito rotador em indivíduos assintomáticos
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Lesões meniscais degenerativas sem dor
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Fraturas por estresse em estágios iniciais
Além disso, em situações de estresse extremo (como acidentes), indivíduos podem sofrer lesões graves sem dor imediata, devido à liberação de catecolaminas e modulação descendente da dor.
4. O papel da sensibilização
A dor persistente muitas vezes envolve processos de:
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Sensibilização periférica
Segundo Clifford Woolf (2011), a sensibilização central envolve amplificação da sinalização neural no sistema nervoso central, produzindo hiperalgesia e alodinia mesmo sem estímulo nocivo significativo.
Isso explica quadros como:
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Dor lombar crônica inespecífica
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Síndrome dolorosa miofascial persistente
Nesses casos, o problema principal não é a estrutura, mas a modulação neural.
5. Modelo biopsicossocial
George Engel propôs em 1977 o modelo biopsicossocial, que hoje é amplamente aplicado na dor crônica. Ele reconhece que:
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Fatores biológicos
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Fatores psicológicos
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Fatores sociais
Interagem na experiência dolorosa.
Catastrofização, medo de movimento (kinesiofobia) e crenças disfuncionais podem amplificar a dor independentemente da condição estrutural.
6. Implicações clínicas
Compreender que nem toda dor é lesão e nem toda lesão provoca dor muda completamente a abordagem terapêutica:
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Reduz alarmismo estrutural
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Evita medicalização excessiva
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Diminui intervenções invasivas desnecessárias
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Valoriza educação em dor
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Reforça estratégias de exposição gradual ao movimento
A dor deve ser entendida como uma experiência protetiva modulada pelo cérebro, e não como um simples marcador de dano tecidual.
📚 Referências Bibliográficas
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International Association for the Study of Pain (IASP). (2020). Revised definition of pain.
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Boden SD et al. (1990). Abnormal MRI scans of the lumbar spine in asymptomatic subjects. J Bone Joint Surg Am.
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Brinjikji W et al. (2015). Systematic review of imaging features of spinal degeneration in asymptomatic populations. AJNR Am J Neuroradiol.
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Woolf CJ. (2011). Central sensitization: implications for diagnosis and treatment of pain. Pain.
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Moseley GL. (2007). Reconceptualising pain according to modern pain science. Physiotherapy.
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Engel GL. (1977). The need for a new medical model: a challenge for biomedicine. Science.







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