sábado, 14 de fevereiro de 2026

A dor miofascial não é apenas uma questão de tecido; é uma questão de sistema.


Nem toda dor é lesão: implicações para a fáscia e a dor miofascial

A compreensão contemporânea da dor exige que abandonemos o modelo puramente estrutural. A dor não é um simples reflexo de dano tecidual; ela é uma experiência perceptiva produzida pelo sistema nervoso em resposta à interpretação de ameaça (IASP, 2020). Esse princípio é fundamental quando falamos de fáscia e dor miofascial.

Durante décadas, a dor miofascial foi explicada quase exclusivamente por alterações mecânicas locais — contraturas, aderências ou “nós” musculares. Contudo, a literatura atual sugere que a relação entre fáscia e dor é muito mais complexa e envolve integração mecânica, neurofisiológica e psicossocial.


1. A fáscia como órgão sensorial

Estudos anatômicos e histológicos demonstraram que a fáscia é altamente inervada, contendo:

  • Fibras A-delta e C

  • Mecanorreceptores

  • Nociceptores polimodais

Robert Schleip demonstrou que a fáscia toracolombar possui maior densidade de nociceptores do que o próprio músculo esquelético adjacente. Isso significa que, em muitos quadros de dor lombar, a origem nociceptiva pode estar mais relacionada à fáscia do que ao músculo.

Além disso, Helene Langevin mostrou que fibroblastos respondem a estímulos mecânicos alterando sua morfologia e organização citosquelética, evidenciando que o tecido fascial é mecanossensível e biologicamente ativo.

Portanto, a fáscia não é apenas um tecido passivo de sustentação, mas um órgão sensorial e comunicativo.


2. Dor miofascial: estrutura ou processamento central?

A definição clássica de ponto-gatilho proposta por Janet Travell e David Simons associa a dor miofascial a uma placa motora disfuncional com liberação excessiva de acetilcolina, hipóxia local e alteração metabólica.

Entretanto, evidências atuais sugerem que:

  • Nem todo ponto doloroso apresenta alteração estrutural palpável consistente

  • Nem toda banda tensa é dolorosa

  • A dor referida pode envolver mecanismos centrais

Clifford Woolf descreve a sensibilização central como amplificação da transmissão neural no sistema nervoso central, resultando em dor persistente mesmo com estímulos mínimos.

Isso implica que:

✔ Nem toda dor miofascial representa dano estrutural
✔ Parte da dor pode ser resultado de amplificação neural


3. Densificação fascial e deslizamento

A abordagem de Carla Stecco introduziu o conceito de “densificação fascial”, relacionado ao aumento da viscosidade do hialuronano entre as camadas fasciais, prejudicando o deslizamento.

Essa alteração pode gerar:

  • Aumento de tensão mecânica

  • Ativação nociceptiva

  • Redução de mobilidade

Entretanto, mesmo nesses casos, a dor não é proporcional à alteração estrutural. O grau de sofrimento depende da modulação neural e do contexto biopsicossocial.


4. Fáscia, sistema nervoso autônomo e dor

A estimulação fascial através de técnicas como liberação miofascial pode:

  • Modular atividade simpática

  • Influenciar variabilidade da frequência cardíaca

  • Alterar percepção dolorosa

Isso sugere que o efeito terapêutico pode ocorrer mais por modulação neurofisiológica do que por “quebra de aderências”.


5. Implicações clínicas para o fisioterapeuta

Se nem toda dor é lesão, a abordagem miofascial deve considerar:

1️⃣ Avaliação estrutural

  • Deslizamento

  • Mobilidade

  • Tensões de cadeia

2️⃣ Avaliação neurofuncional

  • Sensibilidade aumentada

  • Dor desproporcional

  • Padrões de hipervigilância

3️⃣ Educação em dor

Explicar ao paciente que:

  • Dor não significa dano grave

  • Movimento é seguro

  • O sistema nervoso pode estar sensibilizado


6. Integração prática na dor miofascial

A intervenção eficaz deve combinar:

  • Técnicas manuais (modulação periférica)

  • Movimento terapêutico (normalização de carga)

  • Educação em dor (modulação cognitiva)

  • Exposição gradual ao movimento

A liberação miofascial não deve ser vista como técnica “corretiva estrutural”, mas como ferramenta de modulação do sistema neurofascial.


📚 Referências Bibliográficas

  • International Association for the Study of Pain (IASP). (2020). Revised definition of pain.

  • Schleip R et al. (2012). Fascia as a sensory organ. Journal of Bodywork and Movement Therapies.

  • Langevin HM et al. (2006). Fibroblast cytoskeletal remodeling in response to mechanical stretch. FASEB Journal.

  • Stecco C et al. (2013). The fascial system and its role in musculoskeletal pain. Surgical and Radiologic Anatomy.

  • Woolf CJ. (2011). Central sensitization: implications for diagnosis and treatment of pain. Pain.

  • Travell JG, Simons DG. (1999). Myofascial Pain and Dysfunction.

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